Sábado, Abril 25, 2009

Freerunning não existe!

Acho que nunca vi um artigo sobre Freerunning. E sinto muito se o primeiro é tão “agressivo”, mas é minha visão e tento explicar também sua história e o porquê de ser freqüentemente tratado com desprezo e desdém.

Freerunning, no Brasil, é hoje divulgado como uma vertente artística do Parkour. Enquanto o Parkour foca na utilidade e eficiência, Freerunning na estética.

Através desse artigo pretendo explicar porque acho uma hipocrisia o uso do termo Freerunning. Termo muito falado e nada fundamentado. Não tem uma história convincente por trás. Não tem “embaixadores” (embora Foucan diga o contrário), não há uma frente de defesa a ele, uma pessoa, organização, nada. No Brasil, a única tentativa foi a criação de uma comunidade “oficial” por um praticante, que sequer continua envolvido na cena.


História

Freerunning (“corrida livre”), pra começar, é um termo nascido em 2003 durante a criação do documentário Jump London. Foi criado com uma tentativa de “internacionalizar” o nome Parkour, por um tal de Guillaume Pelletier¹, e desde então adotado por Foucan em suas divulgações. Ou seja, a intenção era simplesmente criar um sinônimo mais globalizado para o termo original francês.

Sendo a primeira divulgação “solo” de Foucan, que tinha como objetivo declarado sair pelo mundo divulgando a prática, o documentário acabou por refletir a visão dele. Uma visão onde a prática era focada na liberdade de movimento, de uma forma artística. Visão que difere ideologicamente da idéia original de David Belle, onde o foco é o utilitarismo.

Desde então, os praticantes (mais do que os próprios idealizadores), ao notarem essa diferença começaram a diferir um do outro. Parkour sendo a disciplina utilitária que sempre foi, e Freerunning uma mistura livre destes movimentos com quaisquer outros movimentos do corpo, sejam eles utilitários, artísticos, ou não. Até chutes de artes marciais começaram a ser “absorvidos” pelo Freerunning, onde a movimentação não há limite, não há definição concreta. É simplesmente definido como “liberdade de movimento”, “estilo de vida”, e demais frases de efeito e termos abstratos, dando muita margem para interpretação e pouco sentido concreto.

Em 2005 Jocelyn Demoniere (ou Joss), presidente da PAWA (a então “Associação Mundial de Parkour” que levava o nome de David Belle), lançou um depoimento¹ onde dizia de forma ácida que Freerunning e Parkour se diferiam, dizendo que Freerunning era uma mistura de movimentos acrobáticos para servir a mídia e ao marketing. Isso só reforçou a idéia dos praticantes, da separação.

Isso provocou uma reação de Foucan, que em 2006, lançou uma nota¹ onde, em tom de desabafo, disse que jamais usaria o nome Parkour novamente, e iria definir o que faz apenas como “Freerunning”.


Essa seqüência de depoimentos de frentes importantes do Parkour/Freerunning apenas reforçava o que já era divulgado entre os praticantes: Parkour de Belle seria o uso de movimentos utilitários, enquanto o Freerunning de Foucan diferia por usar movimentos artísticos. No entanto, junto com essa abstração de Foucan, não havia uma filosofia concreta, enquanto já se criava uma filosofia forte no Parkour pregando a não-competição, entre outras coisas.

Logo, enquanto Parkour havia uma forte filosofia defendida pelos praticantes, Freerunning era livre. Não possui uma força o defendendo, uma filosofia, sequer uma história consistente para basear a idéia. Tornou-se um “artigo da wikipedia”, algo passível de ser usado livremente da forma que convir a qualquer um. É comum ver vídeos de acrobacias, que poderiam ser igualmente encaixados como “ginastica artística”, “circo,”, “artes marciais”, “tricks”, simplesmente sendo chamados de Freerunning. O “running” (corrida) é opcional.
Aliás, qualquer vídeo específico dessas artes pode-se encontrar praticantes muito mais evoluídos. Digo que "Freerunning/Parkour é o melhor pretexto pra tentar impressionar com uma técnica ruim".

Ao mesmo tempo, é na sua forma física (os movimentos) tudo o que o Parkour era, e ainda mais. É tudo, e ao mesmo tempo sem uma definição também não é nada.


Liberdade de movimento

Liberdade de movimento é algo muito importante não importa o que você pratique. Estimulando seu corpo de formas diferentes, ele se aprende melhor a lidar com adaptação. Conceito esse básico para uma prática como o Parkour onde se desenvolve a habilidade de lidar com qualquer obstáculo e ambiente.


Hoje, na prática

Aí é que ta. Na prática, hoje se denomina Freerunning, basicamente, vídeos que contenham movimentos de Parkour junto com mortais. Ou seja, um salto mortal é o que o diferencia do Parkour? Então um vídeo só de mortal, sem Parkour, também é Freerunning? Não é circo, ginástica olímpica, dança, ou qualquer outra coisa?

Assim, se conclui que na prática, Freerunning nada seria SEM o Parkour. Sem os movimentos e conceitos trazidos por ele. Tanto na prática quanto conceitualmente e historicamente, o Freerunning como o conhecemos tem como parte intrínseca o Parkour. É simplesmente o uso artístico das habilidades de deslocamento.


Hipocrisia?

É um termo forte, mas é o que eu acho. Freerunning tem sido usado, principalmente, em todas as ocasiões onde as pessoas querem usar Parkour, mas alguma ideologia as impedem de usar. Competição, exibicionismo... Então, não por acreditar na ideologia e sim para satisfazer alguma necessidade pessoal do praticante, ele adota um novo termo. Não porque acredita no Freerunning e sua história, mas sim por hipocritamente manter a “filosofia” do Parkour.

Mas isso não é bom para o Parkour? Provavelmente sim, já que preserva o “nome”. No entanto a partir do momento que os praticantes acreditam praticar “parkour” e “vendem” o termo Freerunning, essa divulgação não é honesta para eles. Ética talvez, mas não honesta.


Diferenciação

Afinal, faço o que? Parkour ou Freerunning? Isso, meu amigo, só você pode dizer.

O que define o utilitário do artístico? Quando um planche é útil, quando é artístico? Quando um SDC (Saut de chat, monkey, Kong) é útil, quando é artístico?

Isso você não vai ver assistindo um vídeo no youtube. É algo pessoal, e depende somente da cabeça da pessoa que o faz.

Aliás, acho que muito mais pessoas que dizem praticar Parkour, na verdade, praticam Freerunning. Não pelos movimentos artísticos, mas sim por buscar a arte no movimento ao invés de uma utilidade.

A diferença está dentro de você e das suas intenções. Você treina para algum desenvolvimento pessoal, ou treina por reconhecimento e valorização por terceiros? Você busca utilidade, ou busca exibição? Existem diversos casos, inclusive, de pessoas que começaram no “Parkour” e depois se identificaram mais com a ginástica artística. É pessoal.


Muitos hoje em dia ainda falam que “Parkour e Freerunning são a mesma coisa”, mas eu ainda vejo uma diferença, uma vertente de pensamento diferente em vários praticantes. Não gosto do termo Freerunning, mas talvez seja um “mal necessário” para a preservação do Parkour.


¹ Depoimento de Foucan e Joss: http://www.worldwidejam.tv/foucan.jam.parkour.html

Comments on "Freerunning não existe!"

 

Blogger duddu said ... (8:25 PM) : 

Me lembrou de um tempo atrás quando eu fui abrir a boca pra dizer que "freenuning no brasil não existe". E quando se olha por essa ótica de que ele não existe em lugar nenhuma... aí é que tudo vira pelo avesso mesmo! HUAHUHUAAHUHUAHUAHUAUAHU

Texto bastante esclarecedor. Tem informação aí da época da PAWA que eu desconhecia. Me deu mais peças pra esse grande quebra-cabeça que vivemos.

Parabéns.

 

Blogger mairus stanislawski said ... (9:43 PM) : 

A diferença está em quem ganha dinheiro com isso! Todos querem encher a boca e dizer:"eu sou o fundador daquilo". Faço as palavras do Stephane minhas:"É tudo a mesma coisa". A mentalidade de treino citada(exibição ou alto superação) não é o que difere um tracer de um freerunner, é o que difere um MODA de um PRATICANTE.

ps.: Art du Deplacement existe?

Acho que estamos chegando em algum lugar. Parabéns Jean.

 

Blogger Arteba said ... (11:47 PM) : 

Não gosto dessa visão negativa sobre Freerunning.
Se por um lado Foucan "criou" essa nova disciplina de movimentação livre e artística, Belle também "criou" o Parkour utilitário a partir do que antes era uma coisa só. Pelo que sei, no começo todos estavam no mesmo barco. O negócio era ficar mais forte, superar obstáculos e vencer uma série de desafios que poderiam ser de qualquer natureza e envolver qualquer tipo de habilidade física. Inclusive todos faziam sim movimentos estéticos e todos tinham (em minha opinião) uma tendência artística e até um pouco exibicionista -inclusive David Belle- deixando sempre o lado utilitário no segundo plano. Essa fase antes do "big-bang", embora eu não tenha conhecido e vivenciado, é a mais “true” de todas em minha opinião. Todos eram unidos e faziam algo sem muita distinção. O objetivo deles era um só: Ser forte do modo mais completo possível.
Assistam novamente a reportagem da TF1. Da pra sentir claramente o clima que eles viviam naquela época. Belle e Foucan num canto, o resto dos Yamakasi no outro. Filmes, câmeras de tv e dinheiro. Na época Foucan ainda acompanhava Belle, mas como podemos perceber ele sempre ficava em segundo plano, mais tarde os dois também se separaram. Tudo muito previsível.Pra mim foi tudo uma questão de ego.

Não sou favorável nem ao David Belle, nem ao Foucan. Inclusive eu acho que muito se fala dos dois esquecendo de que, na verdade, aviam várias pessoas que participaram ativamente desse movimento.
Acho lindo demais o que eles começaram, mas a partir do momento que a fama, o dinheiro e essas ideologias bestas os separaram, eu acredito que a essência se perdeu.

Eu acho totalmente besta essa idéia de separar uma coisa utilitária de outra que é livre e artística. PURA BOBAGEM.
Parkour tem sim muitas utilidades. Salvar sua vida numa situação de perigo é uma delas, mas ele também pode ser útil em te alegrar, em te deixar saudável, em fazer amizades e conhecer novos lugares.

Se me perguntarem hoje o que eu treino, eu digo que é algo parecido com o que eles treinavam no início. Pelo menos é o que eu busco atingir nos meus treinos. Quero ser forte, quero ser ágil, quero ser capaz de fazer algo que nunca imaginei que pudesse fazer, quero me sentir o mais livre possível.

 

Blogger Jean said ... (12:38 AM) : 

valeu! Art e Mairus, vou responder na comunidade. :)

 

Blogger Sicuro said ... (1:52 AM) : 

2 palavras pra esse artigo:

Uma Bosta.

 

Blogger Jean said ... (7:41 PM) : 

Se importa em dizer porque achou uma bosta?

 

Blogger Koxxxa - Alexandre said ... (1:26 PM) : 

Realmente, estamos chegando ao ponto mais alto nesse movimento todo... Acredito que daqui uns 2, 3 anos, estejamos todos (Brasil inteiro) em um nível tão acima do que estamos hoje, que só quem não quiser entender, vai discordar de tudo e todos. E ficará pra fora de qualquer assunto sobre o parkour.

Parabéns Jean!

 

Anonymous Israel Araujo said ... (6:26 PM) : 

Um tanto radical. Mas concordo com 99% senão 100%.

Mto bom Jean.

 

Blogger Sicuro said ... (12:57 PM) : 

Ja que vc diz que se refere a termologia, como se refere naquala comunidade.. parkour não faz sentido tbm, pq, não conheço ngm que faça de fato um percurso, vejo pessoal fazendo saltos de precisao pra la e pra ca, climb, cats, e se é pra levar ao pe da letra a termologia, parkour tbm nao existe.
E além do mais, parkour nao passa de uma coisa que ja se faziam antes mesmo de nomearem, ai vc vem dizer, mas nao existia a filosofia, a eficiencia e bla bla bla.. não importa, o que foi criado nao foi algo novo, so foi nomeado, ja o freeruning eu nao me recordo de alguem fazer isso a anos atraz..

e so uma nota final, agora eu me lembro daquele fake que criuou um tal famoso topico, falando sobre elitismo no parkour e tal.. e lembro de vc ter colocado que o topico era inutil pelo fato do assunto ja ter sido discutido, pois é.. ESSE assunto creio que ja foi discutido tbm, não com esse titulo, que ficou na cara o tanto de ibope que vc queria, e de fato conseguiu, parabéns

 

Blogger Jean said ... (2:54 AM) : 

Eu conheço muita gente que treina percurso sim. E "saltos pra la e pra ca, climbs e cats" sao elementos que compõe um "percurso", não?
A idéia do parkour é velha, a ideologia não é única, a história não é nova, os movimentos não são exclusivos. Mas a história de David Belle e a forma com que ele criou o nome parkour e a ideologia em torno dele é muito bem fundamentada, faz muito sentido, e mudou milhares senão milhões de vidas de pessoas pelo mundo.
Se vc ta interessado, lê o artigo "o espírito do parkour" que explica bem isso sobre a história e como ela justifica a ideologia.

Eu não conheço ninguem que diz "vou sair pra treinar freerunning", e a história do termo não tem fundamento.
Pra mim, na prática não é nada de novo. Não é muito diferente de circo, de tricks, de "accrostreet" como vc chama.

Sim, o título foi bem polemico mesmo pra incitar a argumentaçao de quem ler. :)

 

Blogger Jaime said ... (12:16 PM) : 

2 palavras para esse artigo...

Muito bom!

Falo até que vou mostrar pra minha galera!!

Parabéns,
vou voltar aqui mais vezes pra acompanhar seus textos! :D

 

Anonymous Anônimo said ... (11:34 AM) : 

por icaro

na boa. isso confunde muitos tracers e gera muita briga por ai..
até hoje eu n conheço 1 traçer q n saiba fazer um trick, ou qualquer coisa estilistica.
na minha opinião, o termo FR foi criado para evitar a confusao com a ideologia do pk ,muitos tracers so querem treinar para se evoluir, e como o kra disse, ficar mais forte, independentemente da utilidade. ( até pq uma perseguiçao real soh aconteceu com muitos poucos tracers, apesar de todos eles se prepararem para isso, que quase nunca ocorre).
eu acho necessaria a divisao entre fr e pk,e se n existisse fr, teriam inventado outro nome pra atividade, pq ningem ia dize " vou praticar pk, soh q com tricks,etc" saca?

cada tracer q n se identifica com a filosofia do pk,acabara entrando no fr, ou parando de vez.

o que acho errado é o exibicionismo do fr e as competiçoes, mas... cada runner ve de uma forma, e tudo forma o que é o FR


abraço

 

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