Mais de 2 anos no ar, esse blog já não recebe atualizações a mais de 6 meses. Alguns abandonaram o Parkour, outros criaram seus proprios blogs, outros se afastaram da "panela"... Uma pena. Ele foi criado num período muito legal, onde o Parkour no Brasil ainda não estava tão maduro quanto está hoje. Foi criado numa época onde ainda se carecia uma fonte de informações decente, que retratasse o verdadeiro "espírito" do Parkour. Que representasse uma união de pontos de vista,
Elitismo? Sem dúvida, não sejamos hipócritas. Uma "elite", um grupo de pessoas que se chamavam de panela, porque assim eram. Uma amizade criada via uma minúscula comunidade de Orkut, e fortalecida posteriormente com um pequeno encontro em Curitiba. Pessoas envolvidas de uma forma ou de outra desde a chegada do Parkour no Brasil, pessoas com sede de evolução e com vontade de ajudar.
Pois bem, as coisas foram mudando. Pessoas evoluindo, pontos de vista mudando, e a "panela" aos pocuos se desfazendo. O Parkour começou a crescer, ganhar notoriedade, e os grupos cada vez mais localizados tendiam a se concentrar mais na sua região.
Em suma, uniões que uma vez pareciam sólidas foram se desfazendo. Posso garantir que, naquele momento, ninguem desse grupo esperava que fossemos chegar aonde estamos hoje.
Com a Associação Brasileira de Parkour (ABPK) não foi muito diferente. Seguindo a linha da separação e busca do interesse próprio, apresento minha carta de renúncia como presidente da Associação Brasileira de Parkour. Manterei meus projetos em prol do Parkour no Brasil, mas farei de forma indpendente representando minhas próprias idéias. Não mais representarei uma turma que não quer ser representada. Segue abaixo minha carta de renúncia.
Senhores,
A Associação Brasileira de Parkour completa, em 2008, 3 anos de existência. Em setembro de 2005, alguns tracers brasileiros entre eles Luiz Gustavo de Curitiba, Alberto e Bernardo de Brasília, Matheus (Pexe) do RS, e Esquilo do então "Parkour Floripa", se uniram com o objetivo de fundar a Associação Brasileira de Parkour, a ABPK. O primeiro registro que se tem dessa idéia informal é um tópico(1) numa comunidade do Orkut, datado do dia 02 de Setembro de 2005 em uma época que Parkour ainda era extremamente desconhecido e poucas pessoas sequer haviam falado dele pelo Brasil e pelo mundo. Então foi idealizado e realizado, em dezembro do mesmo ano, o 1o Encontro Brasileiro de Parkour, em Curitiba, pelo Luiz Gustavo.
Superando quaisquer expectativas, estiveram presentes entre 30 e 50 praticantes do DF ao RS, e muitos daqueles que só se conheciam pela internet começaram a criar um fortíssimo laço de amizade e união. No final do segundo dia foi realizada a primeira assembléia da ABPK. Devido à informalidade e ao "impacto" do nome de Associação, embora presente, eu havia decidido não fazer parte da mesma até que fosse formalizada, formalização esta que havia sido prevista para fevereiro de 2006. Ainda assim me ofereci pra ajudar no que pudesse, e fui colocado como "contato" em São Paulo (e não representante, seguindo o então modelo da ABPK). Me comprometi também a organizar o segundo encontro, inicialmente planejado para julho de 2006, mas posteriormente adiado para dezembro, quando foi realizado.
A produção desse evento foi complicada: Optei por fazer num lugar fechado com obstáculos, pelo grande número de praticantes previsto. Para evitar tornar um evento muito comercial, usando marcas, tentei algo com o poder público, que foi quando um tracer (Thiago) me passou o contato do Deputado Turco Loco, que acabou prometendo um patrocínio do governo estadual para a realização do evento, mas para isso eu precisaria formalizar a Associação. Muito google depois, e com uma inestimável ajuda do Fabio que, assim como eu, ajudava só a fim de fazer um bem, registramos a associação aqui em São Paulo. Claro que todo esse processo era sempre discutido e decidido em conjunto com o círculo de amigos criado em Curitiba, por meio de um fórum no site da ABPK. E, claro que, como todo processo burocrático no Brasil, a abertura de uma associação custou dinheiro, saindo sempre dos nossos bolsos sem nenhuma expectativa de retorno. Todo esse processo me custou tempo e dedicação, o que fez com que meu rendimento no bem pago emprego de desenvolvedor de sistemas caísse e causasse minha então demissão no final de outubro do mesmo ano.
Com a associação oficialmente criada, tempo de sobra e a promessa do então deputado Turco Loco, juntei toda minha economia, originalmente para uma viagem à Europa, e a utilizei na produção desse evento. Aluguel de obstáculos, camisetas, banners, segurança, ambulância, pulseiras, água, termos de responsabilidade... Investimento que, para minha surpresa, NÃO foi honrado pelo deputado, fazendo com que toda a produção fosse bancada pela minha economia pessoal de anos de trabalho.
Então o encontro foi realizado: mais de 220 praticantes de todo o Brasil, 220 kg de alimentos arrecadados para caridade, e a presença internacional de Erwan Le Corre.
Embora considerado um sucesso pela maioria dos praticantes, desde sua conclusão não fiquei satisfeito, pois, mesmo com a integração do pessoal, diversão com os amigos, e espaço para conversa com perguntas e respostas, não considerei o encontro construtivo como eu, idealista, gostaria que fosse. No entanto, na mesma noite, comecei a receber no Orkut, dezenas e dezenas de mensagens de praticantes elogiando o encontro, pessoas que eu não conhecia, pessoas com quem eu tinha desavenças... Todas me parabenizando. Os laços de amizade não só se tornavam mais fortes, como o círculo aumentava cada vez mais.
Foi então que, junto com esse evento, surgiu uma oportunidade de um novo evento em janeiro, pelo SESC. Decidimos, então, que o plano original de mudar a diretoria para Brasília em 2007 seria adiado para que pudéssemos aproveitar essas oportunidades em São Paulo. E mais oportunidades foram surgindo, e eventos realizados. Sem eu perceber, aí começara uma nova era. Uma era marcada por eventos de Parkour, uma era onde meu nome era, contra minha vontade, automaticamente associado à presidência de uma associação. Foram diversos eventos ao longo de 2007 e 2008, entre SESC, Prefeitura de São Paulo e SJC, Governo do Estado de São Paulo, e informais, fora eventos ALHEIOS à associação. No entanto, os eventos nunca foram meu foco como objetivo pessoal ou como objetivo da ABPK, eram oportunidades que iam surgindo com a popularização da prática. Isso nunca significou um desvio do objetivo original da Associação de preservar e disseminar o parkour; ainda assim muitos projetos foram idealizados, projetos de ensino, de expansão, de treinos. Mas a ABPK estava organizada de uma forma na qual eu agia praticamente sozinho, o que fez com que as pessoas se afastassem cada vez mais dela e de mim, me impedindo de continuar com esses projetos que, idealmente para mim, deveriam ser realizados em conjunto, porque se trata de uma Associação. Infelizmente apenas os eventos continuavam a ser realizados, afinal eram oportunidades que surgiam de outras frentes, onde a ABPK apenas os organizava com seu expertise na área. Eventos que, incluindo os críticos, todos presenciavam e se beneficiavam.
Com o crescimento do Parkour, mais grupos vinham se formando, e a ABPK continuava na mesma. As pessoas começam a se organizar em grupos locais protegendo seus interesses, e aquele ideal criado em 2005 para unir os praticantes numa única força começa a se distanciar cada vez mais. Não digo que foi culpa de um ou outro, mas do conjunto de circunstâncias.
Já com certa experiência em eventos de Parkour, um amigo me chamou para ir a Florianópolis ajudá-lo na preparação para o 4º Encontro Brasileiro de Parkour. Fui lá de bom grado, ficamos várias horas juntos discutindo e escrevendo o projeto. Quando voltei, fiquei surpreso com o que ele me disse: Os amigos o estavam pressionando para que não houvesse envolvimento algum meu ou da ABPK no evento. Evento que tradicionalmente é feito pela ABPK há 4 anos, evento que já estava planejado há 2 anos, evento que fui explicitamente chamado para ajudar.
Isso foi só a gota d’água que me fez perceber um padrão que havia notado há alguns meses, por causa dessa nova “era de eventos”. Amizades se desfazendo, críticas sobre a minha pessoa vindas de supostos amigos, e julgamentos sem quaisquer fundamentos sobre meu envolvimento com a ABPK, como acusações de que estaria me enriquecendo às custas da mesma. Tudo o que faço e fiz pela associação nunca foi pelo dinheiro, e todos os projetos buscaram sempre beneficiar o máximo de pessoas possível. Projetos que freqüentemente não possuíam qualquer compensação financeira, projetos onde tive de contribuir com meu próprio dinheiro. Disse para alguns e repito aqui, estou mais do que aberto para prestação de qualquer conta com a maior transparência possível. Mais do que isso, gostaria que fosse organizada uma assembléia entre todos os interessados para esclarecer todas as dúvidas que tenham sobre minha gestão da ABPK, entre outras questões acerca da mesma.
No entanto, comunico que, a partir desse momento, não faço mais parte da diretoria da associação. Apresento aqui minha renúncia ao cargo de presidente, entregando-o ao atual vice-presidente, Alberto Brandão. Continuo me colocando à disposição para ajudar no que me for solicitado, mas a partir de agora não serei mais responsável pela representação do nome, e continuarei com meus projetos de maneira independente. Junto com minha carta de renúncia, entrego todos os documentos e dados da ABPK sob meu poder, e cedo, inclusive, todas as estruturas que utilizei em eventos da ABPK *ou não*, para que a atual diretoria as utilize da forma que lhe convir.
Despeço-me com uma triste sensação de não ter feito o melhor que pude. Tracei metas comigo mesmo que não pude cumprir, mas foi uma escolha que tive que fazer baseado em prioridades pessoais. Ainda assim me orgulho do que fiz e conquistei para a ABPK e para todos os praticantes do Brasil, em especial aqueles que comparecem aos eventos e se beneficiam das mais diversas formas.
Espero, com essa atitude, recuperar algumas amizades perdidas e respeito de pessoas importantes para mim, que significa muito mais do que ter meu nome associado automaticamente a uma associação “de ninguém”.
Sinto que me prolonguei demais, e mesmo assim não foi o suficiente para dizer nem metade de tudo o que tenho a dizer sobre tudo o que foi abordado aqui. Por isso, novamente, coloco-me a disposição de quem quiser conversar a respeito nos meios habituais.
Assim me despeço com orgulho do que fiz pela ABPK, e com esperanças de ajudá-la a conquistar muito mais pelo Parkour no Brasil com o novo plano de sua nova diretoria.
Abraço,
Jean Wainer
(1) Comunidade "Le Parkour Brasil": http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=185400&tid=22641443
Marcadores: abpk, brasil, Parkour, presidente, renuncia |
Comments on "Mudanças"
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Wendely Leal said ... (12:29 PM) :
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Bruno Minnemann said ... (3:57 PM) :
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Marco Gomes said ... (4:11 AM) :
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~~"duddu"~~ said ... (11:02 AM) :
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Jean said ... (4:19 PM) :
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Kalavero said ... (10:39 PM) :
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Isabele said ... (11:18 AM) :
post a commentNem imagino o Parkour Brasileiro sem essas pequenas, digamos, confusões.
Não olho de perto o suficiente pra poder julgar o que houve de errado ou certo, mas tenho certeza que houveram evoluções. Eu já considerei uma atitude parecida do Beto errada, mas não considero mais.
A evolução não parou e nem vai parar por nenhuma dessas atitudes.
Sobre o elitismo, vejo com bons olhos; sempre acreditei que essa elite é acessível e o passe pra ela sempre foi cabeça no lugar e/ou treino.
Pena que depois desse tempo todo sem atualizações o tema seja esse.
beijo jeje =*
realmente é uma pena.
O jogo de interesses nascer no meio de um "esporte" (entre aspas, por que o PArkour é muito mais, é um estilo de vida e de visão do mundo) nobre com ideias verdadeiramente éticos como esse. Acredito que esse tipo de atitude faz parte da natureza humana, que cobiça o que é do outro por inveja baseada em incapacidade ou simples cobiça destrutiva, como disse Santo Agostinho.
bom o que aqui cabe não é discutir sociologia ou filosofia e sim continuar a tentar reunir os reais TRACEURS e TRACEUSE, qua não são apenas pessoas que sabem voar de prédios subir muros de 4 ou 5 metros, e virar mortais, mas pessoas que fazem tudo isso com a mente livre, com o coração procurando um caminho de evolução e não ovação ou reconhecimento.
FLOW FL
Por essas e outras que nunca me envolvi a fundo com "associações", "comunidades" ou "grupos". Só dá confusão, instiga a competição e dá merda, sempre.
A ABPK e os evento que você, Jean, organizou sozinho foram muito legais, rederam muita diversão, história pra contar, mas ainda eu, pessoalmente, não quero esse tipo de stress pra mim.
Aquela virada esportiva, no Memorial da América Latina, foi SENSACIONAL. Todos os outros eventos que fui também foram muito irados. Ficam os parabéns.
Até breve.
A vida segue adiante e é bom saber que o parkour sobrevive independente de ABPK ou qualquer outra organização.
A posição mais coerente a ser tomada por nós, tracers, nesse momento é sermos solicitos ao crescimento da atividade (o que na verdade é uma obrigação).
Boa sorte a nova diretoria da Abpk.
Isso ae, valeu pelo apoio :)
As coisas continuam a rolar, essa mudança só vai marcar uma nova fase nessa evolução.
E Wdl, eu nao falei que elitismo nesse caso era uma coisa ruim. As vezes acho bem benéfico, como no caso do blog principalmente durante seu início. :)
Valeu pra todos os amigos..
eu concordo com td que foi dito nesse post.
e tambem acho que essa eh so mais uma fase dessa evolução que esta ocorrendo no parkour!!!!
bons treinos ai pra geral!!!
flw pra todos.
abrass.
Eu tenho um a visao bem egoista sobre o parkour: o Pq pessoal e o pq real do PK.
Um caminho em que cada um entra para por um motivo pessoal, uma meta ou algo do tipo, fora é claro os modinhas- pois isto não é um motivo que se prese.
E tambem não se pode ignorar o pq de o parkour ter sido difundido: Ser forte para ser util.
Não pesquisei muito a fundo a respeito da ABPK mas infelizmente ainda não coinsegui enxergar a necessidade de sua existencia...