Hoje em dia, sempre que o tema "Aulas de Parkour" é abordado nos forums brasileiros, surge uma grande revolta por parte dos praticantes. Quero através desse artigo esclarecer vários pontos relacionados a esse tema, da forma mais clara possível, e tentar fazer as pessoas enxergarem um pouco mais claramente o que acontece. Porque uma pessoa experiente não pode se oferecer para ensinar outras que desejam começar da forma mais segura? Porque uma pessoa não pode ser recompensada pelo seu tempo e dedicação ajudando outras? Quando uma aula de Parkour é vantajosa? Quando é oportunismo, e como conhecer a credibilidade daqueles que ensinam? Porque pagar ou não para ter uma aula? São alguns pontos que quero abordar nesse artigo.
Vou abordar em tópicos, alguns fatos e minha interpretação da influência deles no decorrer da história do Pk no Brasil.
INÍCIO DO PARKOUR NO BRASIL
O Parkour, quando descoberto no Brasil em 2004, chegou pela internet. Nessa época, alguns grupos começaram a se formar, sendo os mais notados em Brasilia, São Paulo e Florianópolis. Grupos formados por pessoas sem muita referência de Parkour, seus praticantes só tinham como ponto de partida as fantásticas imagens daqueles homens se movendo. Sem um site oficial e com pouquíssimas informações na Internet (um fan site em francês/inglês só com videos e poucas informações, e o início do site da Urban Free Flow), tudo o que tínhamos a fazer era tentar imitar os vídeos. Obviamente, sem uma orientação direta, a evolução era muito lenta, e os treinamentos frequentemente errados (lesivos). Por isso, o primeiro "Monkey" demorava meses (1 ano no meu caso), coisa que hoje orientando consigo fazer uma pessoa aprender no primeiro dia. Também, os "big jumps" (pulos de lugares altos) eram frequentes, onde erroneamente treinávamos a CORAGEM e por consequencia estimulávamos a estupidez, ignorando fatores primordiais para a integridade física como técnicas e condicionamento físico.
FORMATOS DOS TREINOS
Assim eram os treinos: Pessoas com um interesse em comum se reuniam para treinar e descobrir aquela prática que só viam em videos, mas por conta própria. Com o passar do tempo os praticantes foram adquirindo experiência, conhecimento, e foram trocando informações. Internet, forums, conversas com estrangeiros, e até gente que foi para Lisses e conheceu David Belle.. Aquilo que antes era um esporte radical colocando o corpo em risco, descobriu ser uma cultura muito grande de auto preservação e auto conhecimento, e as técnicas foram se desenvolvendo cada vez mais e mais rápido, tanto pela experiência adquirida quanto pela troca de informações com outros mais experientes na prática.
AULAS DE PARKOUR NO BRASIL
Entre o final de 2004 e início de 2005, o "famoso" Akira já falava de seus "alunos" de Parkour. Outros praticantes se entreolhavam num tom de desconfiança.. Como alguem tão inexperiente se coloca na posição de ensinar uma coisa tão nova e desconhecida? Começou então uma certa repulsa pelo conceito de "aulas de Parkour". Porque aprender com alguem tão ruim se existem grupos abertos que te ensinam muito mais e de graça? Porque uma "hierarquia" professor - aluno se de um modo geral todos tinham conhecimento semelhante? Assim, o conceito de "aula" começou a parecer furado. E quando aliado à dinheiro então, passou para a imagem de oportunismo. No final de 2005, o grupo mais experiente de São Paulo foi convidado então para dar aulas (sim, pagas) pelo SESC, por uma curta duração. Pela experiência do grupo, não houveram objeções. Em 2006, a AFPK, Associação Fluminense de Parkour fundada por membros do grupo TOBU (conhecido pelo seu criador Julien Sarrazin) começou a acolher membros por uma mensalidade e dar aulas semanais. Devido à má imagem do fundador/presidente Sarrazin (Não Julien, não é inveja), só agravada depois pela conduta do mesmo, a idéia de "aulas pagas" (embora não fosse o objetivo direto da AFPK) só caía no conceito das pessoas.
E QUEM QUERIA COMEÇAR?
Enquanto isso, através de reportagens, internet e boca-a-boca, o Parkour era mais divulgado. A primeira pergunta dos interessados: "Onde tem uma escola de Parkour na minha cidade?". E a resposta: "Não tem, aprenda pela internet e por outras pessoas possivelmente tão inexperientes quanto você." Nisso, alguns enxergaram uma oportunidade, um mercado. Parkour parece muito fácil, afinal é saber usar as habilidades naturais do corpo humano. Professores começaram a surgir, tanto os citados acima quanto outros menos conhecidos, em cidades do interior como em Pirapozinho.
AULA, PORQUE NÃO?
Os praticantes ironizavam e repudiavam a idéia de dar aulas, afinal, foram capazes de aprender tudo sozinhos, porque alguem iria aprender com o professor? Pior, quem seria ousado e experiente o suficiente para assumir essa responsabilidade? Hoje, já são quase 3 anos desde que os primeiros praticantes de Parkour surgiram no Brasil. Além da experiência na prática, aprenderam muitas informações com pessoas de fora do Brasil, somando um conjunto de informações VALIOSAS para o aprendizado de qualquer um. Será que essa experiência não vale a pena ser compartilhada? Sim, já tem muito dessas experiências documentado na internet, e até mesmo nesse blog.. Mas a teoria sem a prática é o suficiente? Não seria de valia que uma pessoa com essa experiência compartilhasse com outros para que possam evoluir mais rápido? Afinal, é assim que funciona o mundo. Hoje demoramos 9 anos do ensino fundamental para aprender o que foi descoberto nos últimos, sei lá, milhões de anos da existência do universo. Do mesmo jeito, podemos compartilhar nossas experiências para que os menos experientes não precisem repetir os nossos erros.
PAGAR, PORQUE NÃO?
Agora, dinheiro. A experiência daqueles que estão compartilhando com você vale alguma coisa? Só você pode saber. Alguem que dedica seu tempo, faz um comprometimento de repassar o que aprendeu, merece ser recompensado? Por outro lado, quem é a pessoa que está te ensinando? Qual a real experiência que ela tem? Uma pessoa que aprendeu sozinho e usa artifícios como um discurso "a presença de um professor é essencial" teria alguma credibilidade? O professor/entidade tem interesse que você evolua e eventualmente o supere, ou te ensina de modo que você sempre dependa do mesmo? São alguns exemplos correntes no cenário atual, que julgo totalmente desfavorável ao ensino de Parkour. David Belle está lançando uma certificação para instrutores de Parkour. Sem dúvida, um grande passo para o correto desenvolvimento do mesmo pelo mundo.
EXPERIÊNCIA PESSOAL
Eu, como participante de um grupo onde ajudo pessoas com menos experiência, acho imensamente gratificante quando contribuo, ainda que com uma minúscula dica, para a conquista de alguem. Seja falando pro Fabio olhar para o chão e vê-lo fazendo seu primeiro saut de chat, seja falando pro Raripu "joga a cabeça pra trás" e dia seguinte receber a mensagem "AEE FIZ PLANCHE GRAÇAS A SUA DICA!" no msn, seja falando pro Pedro "mantem a coluna reta" e ver seu equilíbrio melhorando muito mais no precision.. Agora porque não dar aulas, se eu sei que posso ajudar e adoro quando o faço? É uma responsabilidade grande ensinar alguem, ter um comprometimento com horário... Alguem que se coloca nessa posição não merece ser recompensado pelo seu trabalho? Ontem eu estava no Ibirapuera com uns amigos treinando Parkour, quando paramos para ver um grupo de break dançando. Falei com um dos caras, e ele dizia que todos davam aula em academias. Meu amigo perguntou a ele: "Mas porque vocês cobram?". Eu pergunto, porque não? Eles tem 10 ou até mais anos de experiência, têm o que ensinar, e se colocam a disposição de alunos. Seu trabalho não merece um reconhecimento?
Concluo meu gigante post dizendo que acho que aulas de Parkour podem sim ser muito boas, desde que feitas do modo certo. Sempre foi assim com todas as áreas de conhecimento, porque Parkour não?
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