Acho que nunca vi um artigo sobre Freerunning. E sinto muito se o primeiro é tão “agressivo”, mas é minha visão e tento explicar também sua história e o porquê de ser freqüentemente tratado com desprezo e desdém. Freerunning, no Brasil, é hoje divulgado como uma vertente artística do Parkour. Enquanto o Parkour foca na utilidade e eficiência, Freerunning na estética. Através desse artigo pretendo explicar porque acho uma hipocrisia o uso do termo Freerunning. Termo muito falado e nada fundamentado. Não tem uma história convincente por trás. Não tem “embaixadores” (embora Foucan diga o contrário), não há uma frente de defesa a ele, uma pessoa, organização, nada. No Brasil, a única tentativa foi a criação de uma comunidade “oficial” por um praticante, que sequer continua envolvido na cena.
História
Freerunning (“corrida livre”), pra começar, é um termo nascido em 2003 durante a criação do documentário Jump London. Foi criado com uma tentativa de “internacionalizar” o nome Parkour, por um tal de Guillaume Pelletier¹, e desde então adotado por Foucan em suas divulgações. Ou seja, a intenção era simplesmente criar um sinônimo mais globalizado para o termo original francês.
Sendo a primeira divulgação “solo” de Foucan, que tinha como objetivo declarado sair pelo mundo divulgando a prática, o documentário acabou por refletir a visão dele. Uma visão onde a prática era focada na liberdade de movimento, de uma forma artística. Visão que difere ideologicamente da idéia original de David Belle, onde o foco é o utilitarismo.
Desde então, os praticantes (mais do que os próprios idealizadores), ao notarem essa diferença começaram a diferir um do outro. Parkour sendo a disciplina utilitária que sempre foi, e Freerunning uma mistura livre destes movimentos com quaisquer outros movimentos do corpo, sejam eles utilitários, artísticos, ou não. Até chutes de artes marciais começaram a ser “absorvidos” pelo Freerunning, onde a movimentação não há limite, não há definição concreta. É simplesmente definido como “liberdade de movimento”, “estilo de vida”, e demais frases de efeito e termos abstratos, dando muita margem para interpretação e pouco sentido concreto.
Em 2005 Jocelyn Demoniere (ou Joss), presidente da PAWA (a então “Associação Mundial de Parkour” que levava o nome de David Belle), lançou um depoimento¹ onde dizia de forma ácida que Freerunning e Parkour se diferiam, dizendo que Freerunning era uma mistura de movimentos acrobáticos para servir a mídia e ao marketing. Isso só reforçou a idéia dos praticantes, da separação.
Isso provocou uma reação de Foucan, que em 2006, lançou uma nota¹ onde, em tom de desabafo, disse que jamais usaria o nome Parkour novamente, e iria definir o que faz apenas como “Freerunning”. Essa seqüência de depoimentos de frentes importantes do Parkour/Freerunning apenas reforçava o que já era divulgado entre os praticantes: Parkour de Belle seria o uso de movimentos utilitários, enquanto o Freerunning de Foucan diferia por usar movimentos artísticos. No entanto, junto com essa abstração de Foucan, não havia uma filosofia concreta, enquanto já se criava uma filosofia forte no Parkour pregando a não-competição, entre outras coisas.
Logo, enquanto Parkour havia uma forte filosofia defendida pelos praticantes, Freerunning era livre. Não possui uma força o defendendo, uma filosofia, sequer uma história consistente para basear a idéia. Tornou-se um “artigo da wikipedia”, algo passível de ser usado livremente da forma que convir a qualquer um. É comum ver vídeos de acrobacias, que poderiam ser igualmente encaixados como “ginastica artística”, “circo,”, “artes marciais”, “tricks”, simplesmente sendo chamados de Freerunning. O “running” (corrida) é opcional. Aliás, qualquer vídeo específico dessas artes pode-se encontrar praticantes muito mais evoluídos. Digo que "Freerunning/Parkour é o melhor pretexto pra tentar impressionar com uma técnica ruim". Ao mesmo tempo, é na sua forma física (os movimentos) tudo o que o Parkour era, e ainda mais. É tudo, e ao mesmo tempo sem uma definição também não é nada.
Liberdade de movimento Liberdade de movimento é algo muito importante não importa o que você pratique. Estimulando seu corpo de formas diferentes, ele se aprende melhor a lidar com adaptação. Conceito esse básico para uma prática como o Parkour onde se desenvolve a habilidade de lidar com qualquer obstáculo e ambiente.
Hoje, na prática Aí é que ta. Na prática, hoje se denomina Freerunning, basicamente, vídeos que contenham movimentos de Parkour junto com mortais. Ou seja, um salto mortal é o que o diferencia do Parkour? Então um vídeo só de mortal, sem Parkour, também é Freerunning? Não é circo, ginástica olímpica, dança, ou qualquer outra coisa?
Assim, se conclui que na prática, Freerunning nada seria SEM o Parkour. Sem os movimentos e conceitos trazidos por ele. Tanto na prática quanto conceitualmente e historicamente, o Freerunning como o conhecemos tem como parte intrínseca o Parkour. É simplesmente o uso artístico das habilidades de deslocamento.
Hipocrisia? É um termo forte, mas é o que eu acho. Freerunning tem sido usado, principalmente, em todas as ocasiões onde as pessoas querem usar Parkour, mas alguma ideologia as impedem de usar. Competição, exibicionismo... Então, não por acreditar na ideologia e sim para satisfazer alguma necessidade pessoal do praticante, ele adota um novo termo. Não porque acredita no Freerunning e sua história, mas sim por hipocritamente manter a “filosofia” do Parkour.
Mas isso não é bom para o Parkour? Provavelmente sim, já que preserva o “nome”. No entanto a partir do momento que os praticantes acreditam praticar “parkour” e “vendem” o termo Freerunning, essa divulgação não é honesta para eles. Ética talvez, mas não honesta.
Diferenciação Afinal, faço o que? Parkour ou Freerunning? Isso, meu amigo, só você pode dizer.
O que define o utilitário do artístico? Quando um planche é útil, quando é artístico? Quando um SDC (Saut de chat, monkey, Kong) é útil, quando é artístico? Isso você não vai ver assistindo um vídeo no youtube. É algo pessoal, e depende somente da cabeça da pessoa que o faz. Aliás, acho que muito mais pessoas que dizem praticar Parkour, na verdade, praticam Freerunning. Não pelos movimentos artísticos, mas sim por buscar a arte no movimento ao invés de uma utilidade. A diferença está dentro de você e das suas intenções. Você treina para algum desenvolvimento pessoal, ou treina por reconhecimento e valorização por terceiros? Você busca utilidade, ou busca exibição? Existem diversos casos, inclusive, de pessoas que começaram no “Parkour” e depois se identificaram mais com a ginástica artística. É pessoal. Muitos hoje em dia ainda falam que “Parkour e Freerunning são a mesma coisa”, mas eu ainda vejo uma diferença, uma vertente de pensamento diferente em vários praticantes. Não gosto do termo Freerunning, mas talvez seja um “mal necessário” para a preservação do Parkour.
¹ Depoimento de Foucan e Joss: http://www.worldwidejam.tv/foucan.jam.parkour.html |