Você faz parkour, treina parkour, ou pratica parkour?
Essa pergunta foi proferida no 1° Encontro Brasileiro de Parkour, durante o jantar da foto acima, pelo Luiz Gustavo Nikolas. Não entendi muito bem o intuito da pergunta, mas na época, tinha apenas 1 ano e pouco de parkour mal treinado e realmente eu não tinha uma resposta pronta. Hoje, 3 anos e meio depois, fizemos um treino do GT num prédio abandonado. Pra quem não sabe, o GT (Geração Tracer) é um grupo que criei com alguns amigos pelo Brasil para ensinar o Parkour, mais ou menos aos moldes do Parkour Generations, BrTracer, PKMAX, PKSC. Aqui em São Paulo, temos nos reunido a cada 15 dias para passar um treino diferente, focando em diversos aspectos. Já fizemos treinos baseados em percursos simples, em preparação física, em técnicas, treinos focados no aspecto mental... Aliás, isso é algo que vejo e aprendi com o Zico, mais do que outras pessoas que converso: muita atenção na parte psicológica. Trabalhar o medo, concentração, elementos que esquecemos quando estamos num obstáculo "conveniente" para técnicas simples. ![]() Pois bem, o treino de hoje foi numa construção abandonada de um prédio. Num cenário meio pós apocalíptico que lembra o fictício bairro B13, uma estrutura inacabada envolta por árvores e mato. O subsolo é praticamente um esgoto, acumulando água das chuvas que encobre o solo por uns 30 cm. As paredes do fundo são abertas, responsável pela pouca iluminação do andar. Ao redor do prédio, arvores e muita lama, devido às chuvas recentes. Aliás, um ótimo cenário para um mapa de Counter Strike ou uma partida de paintball tático. Um ambiente sombrio, que eu com certeza não me atreveria ir a noite nem por um saquinho de jujubas sortidas. Talvez seja difícil visualizar simplesmente falando assim, mas é um lugar sinistro. As paredes, cerca de 2,5m de altura, tem uma espessura de mais ou menos 10cm, e um vão de apenas 1 metro do teto. A pouca iluminação não atinge todo o ambiente, tornando quase impossível de enxergar a sua frente. A única forma de ultrapassar a parede é "climbando" ela, e percorrendo por cima em quadrupedal. ![]() Se preferir, pode também percorrer a parede pendurado apenas pelas mãos, tomando cuidado com os tijolos soltos nas paredes (como o Pipolo, que ao fazer um "climb" caiu e derrubou 2 tijolos que cairam a poucos centímetros de sua cabeça). Equilíbrio pelas vigas do chão. "Planche" nas vigas altas para subir. Tudo isso sob o risco de mergulhar sua calça moletom cinza com seu raro exemplar sobressalente de kalenji no esgoto. ![]() É um momento tenso. E onde isso relaciona ao início do tópico? Simples: Na minha visão isso é fazer o parkour, não no sentido de criar, mas sim de executar, praticar o parkour. As técnicas sofisticadas não tem qualquer importância. Não importa se você pega atrás do muro, se anda sentado por cima do muro, se ajoelha no quadrupedal porque ta cansado. Você precisa atravessar a sala, e se precisar subir no muro, o cotovelo e o que tiver mais é bem vindo. Nessa hora não tem parkour de "king kong", ou disputa pra quem pula mais longe no precisão. ![]() É hora de usar o que seu corpo tem para oferecer. As vezes estender a mão para ajudar o amigo. Não tem técnica certa, é a hora da sobrevivência. Treinar o instinto! Claro, existem situações e situações onde algumas técnicas podem ajudar, ou que você corra algum outro tipo de perigo. Mas sempre lembre que o mais simples é o mais eficiente. E parkour é eficiente porque é simples, parkour na sua essência é sobrevivência. Agora voltando à pergunta de 2005: Hoje vi que apenas treinava o parkour. E que coloca-lo em prática as vezes é importante para entender realmente para que você treina. É incrível como muitos conceitos podem mudar: Por exemplo, usamos "planche" numa necessidade real. Usamos o movimento quadrupedal numa situação onde não havia alternativa. Usei uma descida de "barra" (na viga de concreto) que achei que nunca seria útil. E o mais importante: Foram todas descobertas instintivas. Em momento algum paramos para analizar a técnica pronta mais eficiente, simplesmente lidamos com a tensão da circunstância e deixamos nosso corpo achar a forma mais eficaz e segura de atingir seu objetivo. Pratique Parkour. Treine seus instintos. Mais importante que repetir técnicas, é conhecer seu corpo. Se coloque em situações diferentes, esqueças as "manobras" prontas e use a imaginação para sair "vivo" de um lugar. Já diria a música do desenho Mogli, da Disney: Necessário, somente o necessário.. O extraordinário é demais! Ps: Me perdi várias vezes no assunto ao decorrer do texto, me desculpe... Só queria compartilhar a experiência de ontem, e mostrar quantas coisas é possível aprender em treinos como esse. ![]() Ps2: Pode ter sido meio estúpido correr risco num lugar desse, com tanta água parada, mosquitos, um potencial foco de dengue entre outras doenças e outros riscos, fora os tijolos soltos e paredes frouxas. Então muito cuidado ao se aventurar em lugares desconhecidos. |






