Domingo, Maio 31, 2009

Você faz parkour, treina parkour, ou pratica parkour?



Essa pergunta foi proferida no 1° Encontro Brasileiro de Parkour, durante o jantar da foto acima, pelo Luiz Gustavo Nikolas. Não entendi muito bem o intuito da pergunta, mas na época, tinha apenas 1 ano e pouco de parkour mal treinado e realmente eu não tinha uma resposta pronta.

Hoje, 3 anos e meio depois, fizemos um treino do GT num prédio abandonado. Pra quem não sabe, o GT (Geração Tracer) é um grupo que criei com alguns amigos pelo Brasil para ensinar o Parkour, mais ou menos aos moldes do Parkour Generations, BrTracer, PKMAX, PKSC. Aqui em São Paulo, temos nos reunido a cada 15 dias para passar um treino diferente, focando em diversos aspectos. Já fizemos treinos baseados em percursos simples, em preparação física, em técnicas, treinos focados no aspecto mental... Aliás, isso é algo que vejo e aprendi com o Zico, mais do que outras pessoas que converso: muita atenção na parte psicológica. Trabalhar o medo, concentração, elementos que esquecemos quando estamos num obstáculo "conveniente" para técnicas simples.


Pois bem, o treino de hoje foi numa construção abandonada de um prédio. Num cenário meio pós apocalíptico que lembra o fictício bairro B13, uma estrutura inacabada envolta por árvores e mato. O subsolo é praticamente um esgoto, acumulando água das chuvas que encobre o solo por uns 30 cm. As paredes do fundo são abertas, responsável pela pouca iluminação do andar. Ao redor do prédio, arvores e muita lama, devido às chuvas recentes. Aliás, um ótimo cenário para um mapa de Counter Strike ou uma partida de paintball tático. Um ambiente sombrio, que eu com certeza não me atreveria ir a noite nem por um saquinho de jujubas sortidas.

Talvez seja difícil visualizar simplesmente falando assim, mas é um lugar sinistro.

As paredes, cerca de 2,5m de altura, tem uma espessura de mais ou menos 10cm, e um vão de apenas 1 metro do teto. A pouca iluminação não atinge todo o ambiente, tornando quase impossível de enxergar a sua frente. A única forma de ultrapassar a parede é "climbando" ela, e percorrendo por cima em quadrupedal.
Se preferir, pode também percorrer a parede pendurado apenas pelas mãos, tomando cuidado com os tijolos soltos nas paredes (como o Pipolo, que ao fazer um "climb" caiu e derrubou 2 tijolos que cairam a poucos centímetros de sua cabeça). Equilíbrio pelas vigas do chão. "Planche" nas vigas altas para subir. Tudo isso sob o risco de mergulhar sua calça moletom cinza com seu raro exemplar sobressalente de kalenji no esgoto.


É um momento tenso. E onde isso relaciona ao início do tópico? Simples: Na minha visão isso é fazer o parkour, não no sentido de criar, mas sim de executar, praticar o parkour.
As técnicas sofisticadas não tem qualquer importância. Não importa se você pega atrás do muro, se anda sentado por cima do muro, se ajoelha no quadrupedal porque ta cansado. Você precisa atravessar a sala, e se precisar subir no muro, o cotovelo e o que tiver mais é bem vindo. Nessa hora não tem parkour de "king kong", ou disputa pra quem pula mais longe no precisão.
É hora de usar o que seu corpo tem para oferecer. As vezes estender a mão para ajudar o amigo. Não tem técnica certa, é a hora da sobrevivência. Treinar o instinto!

Claro, existem situações e situações onde algumas técnicas podem ajudar, ou que você corra algum outro tipo de perigo. Mas sempre lembre que o mais simples é o mais eficiente. E parkour é eficiente porque é simples, parkour na sua essência é sobrevivência.

Agora voltando à pergunta de 2005: Hoje vi que apenas treinava o parkour. E que coloca-lo em prática as vezes é importante para entender realmente para que você treina. É incrível como muitos conceitos podem mudar: Por exemplo, usamos "planche" numa necessidade real. Usamos o movimento quadrupedal numa situação onde não havia alternativa. Usei uma descida de "barra" (na viga de concreto) que achei que nunca seria útil. E o mais importante: Foram todas descobertas instintivas. Em momento algum paramos para analizar a técnica pronta mais eficiente, simplesmente lidamos com a tensão da circunstância e deixamos nosso corpo achar a forma mais eficaz e segura de atingir seu objetivo.

Pratique Parkour. Treine seus instintos. Mais importante que repetir técnicas, é conhecer seu corpo. Se coloque em situações diferentes, esqueças as "manobras" prontas e use a imaginação para sair "vivo" de um lugar. Já diria a música do desenho Mogli, da Disney: Necessário, somente o necessário.. O extraordinário é demais!

Ps: Me perdi várias vezes no assunto ao decorrer do texto, me desculpe... Só queria compartilhar a experiência de ontem, e mostrar quantas coisas é possível aprender em treinos como esse.

Ps2: Pode ter sido meio estúpido correr risco num lugar desse, com tanta água parada, mosquitos, um potencial foco de dengue entre outras doenças e outros riscos, fora os tijolos soltos e paredes frouxas. Então muito cuidado ao se aventurar em lugares desconhecidos.


Sábado, Abril 25, 2009

Freerunning não existe!

Acho que nunca vi um artigo sobre Freerunning. E sinto muito se o primeiro é tão “agressivo”, mas é minha visão e tento explicar também sua história e o porquê de ser freqüentemente tratado com desprezo e desdém.

Freerunning, no Brasil, é hoje divulgado como uma vertente artística do Parkour. Enquanto o Parkour foca na utilidade e eficiência, Freerunning na estética.

Através desse artigo pretendo explicar porque acho uma hipocrisia o uso do termo Freerunning. Termo muito falado e nada fundamentado. Não tem uma história convincente por trás. Não tem “embaixadores” (embora Foucan diga o contrário), não há uma frente de defesa a ele, uma pessoa, organização, nada. No Brasil, a única tentativa foi a criação de uma comunidade “oficial” por um praticante, que sequer continua envolvido na cena.


História

Freerunning (“corrida livre”), pra começar, é um termo nascido em 2003 durante a criação do documentário Jump London. Foi criado com uma tentativa de “internacionalizar” o nome Parkour, por um tal de Guillaume Pelletier¹, e desde então adotado por Foucan em suas divulgações. Ou seja, a intenção era simplesmente criar um sinônimo mais globalizado para o termo original francês.

Sendo a primeira divulgação “solo” de Foucan, que tinha como objetivo declarado sair pelo mundo divulgando a prática, o documentário acabou por refletir a visão dele. Uma visão onde a prática era focada na liberdade de movimento, de uma forma artística. Visão que difere ideologicamente da idéia original de David Belle, onde o foco é o utilitarismo.

Desde então, os praticantes (mais do que os próprios idealizadores), ao notarem essa diferença começaram a diferir um do outro. Parkour sendo a disciplina utilitária que sempre foi, e Freerunning uma mistura livre destes movimentos com quaisquer outros movimentos do corpo, sejam eles utilitários, artísticos, ou não. Até chutes de artes marciais começaram a ser “absorvidos” pelo Freerunning, onde a movimentação não há limite, não há definição concreta. É simplesmente definido como “liberdade de movimento”, “estilo de vida”, e demais frases de efeito e termos abstratos, dando muita margem para interpretação e pouco sentido concreto.

Em 2005 Jocelyn Demoniere (ou Joss), presidente da PAWA (a então “Associação Mundial de Parkour” que levava o nome de David Belle), lançou um depoimento¹ onde dizia de forma ácida que Freerunning e Parkour se diferiam, dizendo que Freerunning era uma mistura de movimentos acrobáticos para servir a mídia e ao marketing. Isso só reforçou a idéia dos praticantes, da separação.

Isso provocou uma reação de Foucan, que em 2006, lançou uma nota¹ onde, em tom de desabafo, disse que jamais usaria o nome Parkour novamente, e iria definir o que faz apenas como “Freerunning”.


Essa seqüência de depoimentos de frentes importantes do Parkour/Freerunning apenas reforçava o que já era divulgado entre os praticantes: Parkour de Belle seria o uso de movimentos utilitários, enquanto o Freerunning de Foucan diferia por usar movimentos artísticos. No entanto, junto com essa abstração de Foucan, não havia uma filosofia concreta, enquanto já se criava uma filosofia forte no Parkour pregando a não-competição, entre outras coisas.

Logo, enquanto Parkour havia uma forte filosofia defendida pelos praticantes, Freerunning era livre. Não possui uma força o defendendo, uma filosofia, sequer uma história consistente para basear a idéia. Tornou-se um “artigo da wikipedia”, algo passível de ser usado livremente da forma que convir a qualquer um. É comum ver vídeos de acrobacias, que poderiam ser igualmente encaixados como “ginastica artística”, “circo,”, “artes marciais”, “tricks”, simplesmente sendo chamados de Freerunning. O “running” (corrida) é opcional.
Aliás, qualquer vídeo específico dessas artes pode-se encontrar praticantes muito mais evoluídos. Digo que "Freerunning/Parkour é o melhor pretexto pra tentar impressionar com uma técnica ruim".

Ao mesmo tempo, é na sua forma física (os movimentos) tudo o que o Parkour era, e ainda mais. É tudo, e ao mesmo tempo sem uma definição também não é nada.


Liberdade de movimento

Liberdade de movimento é algo muito importante não importa o que você pratique. Estimulando seu corpo de formas diferentes, ele se aprende melhor a lidar com adaptação. Conceito esse básico para uma prática como o Parkour onde se desenvolve a habilidade de lidar com qualquer obstáculo e ambiente.


Hoje, na prática

Aí é que ta. Na prática, hoje se denomina Freerunning, basicamente, vídeos que contenham movimentos de Parkour junto com mortais. Ou seja, um salto mortal é o que o diferencia do Parkour? Então um vídeo só de mortal, sem Parkour, também é Freerunning? Não é circo, ginástica olímpica, dança, ou qualquer outra coisa?

Assim, se conclui que na prática, Freerunning nada seria SEM o Parkour. Sem os movimentos e conceitos trazidos por ele. Tanto na prática quanto conceitualmente e historicamente, o Freerunning como o conhecemos tem como parte intrínseca o Parkour. É simplesmente o uso artístico das habilidades de deslocamento.


Hipocrisia?

É um termo forte, mas é o que eu acho. Freerunning tem sido usado, principalmente, em todas as ocasiões onde as pessoas querem usar Parkour, mas alguma ideologia as impedem de usar. Competição, exibicionismo... Então, não por acreditar na ideologia e sim para satisfazer alguma necessidade pessoal do praticante, ele adota um novo termo. Não porque acredita no Freerunning e sua história, mas sim por hipocritamente manter a “filosofia” do Parkour.

Mas isso não é bom para o Parkour? Provavelmente sim, já que preserva o “nome”. No entanto a partir do momento que os praticantes acreditam praticar “parkour” e “vendem” o termo Freerunning, essa divulgação não é honesta para eles. Ética talvez, mas não honesta.


Diferenciação

Afinal, faço o que? Parkour ou Freerunning? Isso, meu amigo, só você pode dizer.

O que define o utilitário do artístico? Quando um planche é útil, quando é artístico? Quando um SDC (Saut de chat, monkey, Kong) é útil, quando é artístico?

Isso você não vai ver assistindo um vídeo no youtube. É algo pessoal, e depende somente da cabeça da pessoa que o faz.

Aliás, acho que muito mais pessoas que dizem praticar Parkour, na verdade, praticam Freerunning. Não pelos movimentos artísticos, mas sim por buscar a arte no movimento ao invés de uma utilidade.

A diferença está dentro de você e das suas intenções. Você treina para algum desenvolvimento pessoal, ou treina por reconhecimento e valorização por terceiros? Você busca utilidade, ou busca exibição? Existem diversos casos, inclusive, de pessoas que começaram no “Parkour” e depois se identificaram mais com a ginástica artística. É pessoal.


Muitos hoje em dia ainda falam que “Parkour e Freerunning são a mesma coisa”, mas eu ainda vejo uma diferença, uma vertente de pensamento diferente em vários praticantes. Não gosto do termo Freerunning, mas talvez seja um “mal necessário” para a preservação do Parkour.


¹ Depoimento de Foucan e Joss: http://www.worldwidejam.tv/foucan.jam.parkour.html

Domingo, Abril 19, 2009

Entrevista com David Belle

Segue abaixo uma entrevista com David Belle que eu realmente gostei. Eu não sei muito bem quem a fez, mas ela é a tradução da tradução. O artigo que me baseei para traduzir está aqui.

Os palavrões foram traduzidos da versão em inglês.

O artigo realmente está mal escrito desde o original, mas se alguem tiver algumas sugestões de correção na tradução por favor comentem.

A entrevista é interessantíssima, porque aparentemente mostra mesmo o ponto de vista de David Belle, e não perguntas superficiais ou informações jogadas por pessoas ao seu redor.
Não concordo com tudo o que ele fala, mas é sempre bom conhecer seu ponto de vista. Segue abaixo.
A discussão sobre essa entrevista, assim como meus comentários, seguem nessa comunidade do orkut: http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=46609377&tid=5326146144420791219

Porque você decidiu passar de um bombeiro para um ator/dublê?

Primeiro, depois de ser bombeiro, eu fui para o exército. Eu estava na infantaria dos fuzileiros. Foi uma coincidência parar nos filmes. Não era uma vocação. Não era algo que eu quis fazer desde pequeno. O que eu queria era tornar meu esporte conhecido: que Parkour se tornasse reconhecido. Meu irmão mostrou meus pequenos videos para a mídia e eles se interessaram; o que me trouxe aos filmes. Mas atuar não era algo que eu queria fazer originalmente. Agora que eu estou no ramo, eu me divirto e não vou disperdiçar a oportunidade. Se existirem oportunidades para mim no cinema, eu vou aproveitá-las. Senão eu  sigo outro caminho. No entanto, no momento eu não penso em fazer carreira nessa área. Eu estava mais que feliz com o primeiro "13o Distrito". Era o suficiente pra mim poder contar aos meus filhos. Quando terminei de trabalhar no B13, eu disse a mim mesmo: "Mesmo que aja apenas esse, fico feliz que Parkour me levou a fazer isso; poder mostrar Parkour para o público e me tornar conhecido". Para o resto, não façamos planos do que vai ou não acontecer.


Você diz como se você mesmo não tivesse feito planos, como se tivesse tudo acontecido acidentalmente...

Mas foi isso que aconteceu! Eu nunca tive nenhum tipo de estratégia. Nunca tentei me vender para atuar no cinema. Nunca pedi por nada. Tudo começou com o documentário que foi mostrado na TV. A partir daí eu aceitei o que as pessoas ofereceram. Até a última coisa, o Prince of Persia, não fui eu quem pediu, foram eles que me contactaram enquanto estava gravando B13:U (B13: Ultimatum). Eles me ligaram umas 4 vezes, insistindo que eu trabalhasse com eles. Eu estava trabalhando em outro filme na época, então concordamos que eu iria trabalhar para eles nos meus dias livre. Parkour está sendo incorporado em tudo que é filme hoje em dia, sempre que tiver uma pequena corrida ou um salto eles usam Parkour. Percebemos isso claramente isso agora, os saltos estão diferentes.


Quais as diferenças entre se preparar para os saltos em um filme e seu próprio treinamento?

Eu faço a mesma coisa. Parkour, eu terminei com isso agora. As pessoas estáo começando a se interesar nessa arte, mas eu já a explorei demais. Eu também tenho muito interesse em outras coisas. Quando alguem fala comigo sobre Parkour eu não vou dizer "tarde demais"; na maioria das vezes eu respondo "Você deveria ter vindo quando eu tinha 20 anos. Eu estava realmente motivado naquela época! Eu vivia Parkour a cada segundo da minha vida." Agora eu poderia aprender fazer música, tocar guitarra ou algo do tipo; o que importa é que eu quero aprender outras coisas. Parkour não é a única coisa na vida. As pessoas me dizem "Parkour é muito bom, eu preciso fazer!", eu tenho interesse em outras coisas também. Parkour é um método de treinamento que as pessoas precisam treinar porque te ajuda a se deslocar em ambientes urbanos ou naturais e a aprender a se adaptar à eles. No entanto, para mim, aprender coisas tipo cozinhar é tão importante quanto fazer Parkour. Saber como arrumar um carro, como ajudar alguem sofrendo um ataque cardíaco, etc. Para mim esses são os básicos da vida. Eu não sou como um velho artista marcial aos 80 anos que está sempre praticando os mesmos socos. É até provável que o cara nunca tenha lutado na sua vida e eu gostaria de dizer a ele "Pare de socar, relaxe, viva normalmente; aproveite sua vida". Porque há muita rigidez quando alguem se concentra demais em algo. E eu não quero acabar assim. Quando você pega seu diploma de primeiros socorros, você não vai salvar as pessoas todo dia. É mais "se algo acontecer, eu saberei o que fazer". Eu sempre treinei Parkour com a mesma mentalidade. Então fodam-se aqueles que me dizem "Hey faça uma demonstração! Ou algo...", eu nunca treinei parkour para performar ou me exibir. Para mim, Parkour é algo pessoal. Aconteceu que ficou popular. Não fui eu quem o colocou na internet.


Foi esse o motivo do seu desentendimento com os Yamakasi ao levar Parkour para os filmes e shows?

Não. Mas quando penso nisso, não há problema com os Yamakasi. Eu só pratico o que meu pai me ensinou. Se você os ouvir, vão dizer que eles fazem algo que eles criaram. Nós todos vivemos no mesmo lugar. O grupo Yamakasi sequer existe ainda, todos saíram; agora é aquela "coisa de Majestic Force". Quando era Yamakasi eles eram todo "Somos Yamakasi, é o esporte", agora eles estão se aproximando do "PG Tips" porque esse projeto está funcionando bem. E eu me pergunto, porque isso? Tivemos um simples esporte, porque todos querem dar um novo nome? "É como o Parkour, mas é tipo aquela coisinha chamada Free running..". Mas é Parkour! Quando você vai em qualquer país você diz "eu jogo futebol ou vôlei". O nome do esporte não muda. Então porque mudar o nome do Parkour a não ser que você queira fazer algo tipo de negócio e poder dizer "Eu sou o criador desse novo esporte, exatamente como Parkour mas que você pula numa perna só"? Mudar uma coisinha para dizer que você é o criador de algo e poder fazer algum dinheiro com isso. O objetivo do Parkour não é fazer dinheiro ou abrir um negócio. Não existe um objetivo financeiro por trás. Parkour deve ser ensinado para pessoas que querem aprender. Se eles não têm dinheiro não importa, porque você não precisa para praticar, só um par de bons tênis e pronto. Agora as pessoas dizem "Atenção! A academia vai abrir!" ou "Vai ter um centro de Parkour blablabla". Mas eu, eu aprendi Parkour lá fora! O verdadeiro treino de Parkour é feito do lado de fora. Você pode fazer o que quiser com seus centros, colocar uns colchões, mas as pessoas vão sempre acabar indo lá fora.


Que necessidade o fez criar o Parkour?

Foi meu pai que me ensinou. Eu tinha visto e ouvido sobre muitas coisas que ele havia feito quando bombeiro - era uma verdadeira lenda. Eu queria saber sua história. Ou meu pai tinha um dom e nesse caso eu nunca poderia ser como ele, ou ele treinou para ficar tão bom e nesse caso ele provavelmente tem algo a me ensinar. Então eu percebi o quanto ele treinou. Ele treinava como eu nunca treinei na minha vida. Comparao a ele, eu sou uma criança brincando. Quando eu penso em todo o treinamento físico que ele passou eu penso "É esse o preço para ficar tão bom? Porra é muito difícil!" Muitos pagam para ser treinados, mas eu reconheço que se qualquer um tivesse treinado com ele um só dia, nenhum jamais voltaria. É tão duro assim. Tantas pessoas tentam treinar de leve "Venha fazer Parkour! É muito legal!". Mas se amanhã você fizesse o verdadeiro treino, você acabaria chorando. É o que você precisa saber: Você vai chorar, você vai sangrar e você vai suar como nunca antes. Não vou mentir quanto a isso. Agora se você vem me dizer "Hey eu quero aprender Parkour, mas pega leve, eu não quero forçar muito", então vá fazer outra coisa. É para guerreiros. Um método de treinamento para guerreiros. Não é como se "Eu quero aprender a lutar; por favor não me bata muito forte porque eu não gosto". Se é o caso, vá fazer algo diferente! Se quer ser um verdadeiro guerreiro, você precisa passar por maus bocados.


Qual o uso do Parkour?

Fácil, nós temos duas mãos: é para pegar coisas. Podemos pegar coisas para nos deslocar. Podeomos nos levantar. Podemos saltar e correr com nossas pernas. Podemos nadar. Instintivamente você sabe que pode fazer essas coisas. Quando você nada, sabe que está em você. Não é à toa. Você não é obrigado a se especializar nisso, como se tornar um especialista em escalada. Você ainda pode experimentar tudo e eu acho que é sobre isso que é a vida. Não se feche para nada e pense que você achou a verdade e compreendeu a vida. Muitos abrem sua mente por diferentes caminhos como música e pintura, assim como Parkour. "Como" não é importante. O que importa é abrir sua mente porque assim você ganha liberdade. Eu acho que quando você treina parkour, você percebe um pouco mais sobre o significado de liberdade especialmente no que diz respeito a sociedade. Ele realmente abriu minha mente. Mas isso não significa que irá ter o mesmo efeito sobre outra pessoa. O que é bom para um não é necessariamente bom para outro.


Qual a liberdade do Parkour?

Depois de um bom treino, e boa preparação física, sabemos exatamente do que somos capazes, e que podemos evoluir sem ser incomodado por outros. Ainda respeitando outros, mas não sendo incomodados por eles. Agora eu frequentemente preciso me justificar; especialmente com polícia. Mas por outro lado eu os entendo, quando eles me vêem escalando coisas eles podem pensar que eu roubei algo. Existem vários momentos difíceis como esses, então penso em me mudar para outro país como Tailândia ou mesmo a Inglaterra, qualquer lugar onde a polícia não é tão incômoda.


Até na Inglaterra?

Sim! Mesmo tendo muitas câmeras lá. A polícia sabe o que é Parkour. Enquanto na França eles ainda atormentam mesmo com o esporte desenvolvido aqui. Já fazem 10 ou 15 anos desde que o Parkour começou a ser coberto pela mídia na França e ninguem sabe dele. Sempre me fazem as mesmas perguntas repetidamente. Quando estamos na rua, é exatamente como a 15 anos atrás quando tudo começou. Isso me frustra porque a percepção pública não evolui tão rápido quanto o Parkour. Se tivéssemos tido os recursos para criar algo bom, mas não temos. No momento todos estão tentando seguir seu próprio caminho, estamos andando em círculos; mas tudo poderia ter sido feito um bom tempo atrás! Não me surpreende se as coisas que eu gostaria de fazer apenas acontecessem quando eu estiver 60 anos e não puder me mover como hoje. O que gostaria de conquistar é algo melhor; algo mais perto das ruas. Talvez apenas um lugar onde podemos unir todos na rua. Gostaria de criar uma fundação e conseguir 500.000 ou mesmo 1 milhão de euros; com isso eu diria "Ok, vamos investir toda essa grana para criar esse lugar para o Parkour". Não vou dizer "Ok, legal, mas eu vou pegar um quarto disso tudo porque eu sou o fundador da disciplina". Não! Não vou pegar um centavo. Se conseguirmos esse dinheiro é porque as pessoas querem um lugar como esse. Então usamos esse dinheiro para criar esse lugar e pronto. Quando penso a respeito, com o dinheiro que fiz de filmes e outras coisas, o mesmo com os Yamakasi... Se tivéssemos nos unido, teria sido feito. Mas ao invés disso, cada um fez do seu jeito, brigando mais e mais sobre onde tudo começou, alguns nunca quiseram admitir que veio tudo de um lugar; nós nos dividimos ao invés de nos unir.

Agora estamos numa estratégia do tipo "dividir e conquistar".

Agradecimentos ao Elias Rodrigues por dicas na tradução.

Sexta-feira, Março 20, 2009

Conceitos básicos sobre o Parkour

Parkour é uma atividade física com seu princípio baseado em utilitarismo e longevidade através da integridade física. O conceito básico é focar em desenvolver seu corpo de forma saudável para ter total domínio sobre ele, sobretudo diante um obstáculo.
Consiste em movimentos e habilidades naturais como correr, saltar, se pendurar, escalar, se equilibrar. Basicamente, movimentos que poderiam salvar sua vida em uma situação de perigo.
Não se trata de um esporte propriamente dito porque não há competições, não existem regras, não há um juiz e um jeito certo ou errado. É uma idéia por trás do movimento.
Quem pratica Parkour é chamado de Tracer (ou Traceuse no feminino). É uma gíria em Francês usada pra denominar algo que percorre seu caminho sem interrupção. Foi usada pela primeira vez no grupo de David Belle denominado "Original Tracer".

Parkour foi criado por David Belle, seguindo ensinamentos que seu pai Raymond Belle havia aprendido durante a guerra do Vietnã na qual participou. Ensinamentos esses que consistiam em dominar o ambiente para compensar sua desvantagem númerica e de armamentos em relação ao exército americano.
David Belle então levou esses ensinamentos para o cenário urbano e o praticou junto a amigos numa pacata cidade no subúrbio de Paris, chamada Lisses. David tambem havia sido fuzilero na França e bombeiro de elite em Paris.
Lá por 1998, David Belle deu um nome àquilo que praticava a mais de 15 anos com os amigos, Parkour. O nome é baseado no "parcours du combattant", algo que se assemelha às pistas de obstáculos militares que vemos em filmes. David mudou o nome, tirou "combattant", afinal não se tratavam mais de soldados. Tirou o S, afinal o parkour trata de eficiência, e uma letra que não é pronunciada não é eficiente. E optou por colocar o K ao invés do C para ressaltar a diferença e dar um caráter mais "agressivo" à prática.
Ao contrário de que muitos pensam, o nome é apenas "Parkour", e não "Le" Parkour. O Le é simplesmente o artigo em Francês e não faz parte do nome dado e registrado por David Belle.
Então a partir de 1998 o Parkour começou a chamar a atenção, e assim passou a ser divulgado mais pela mídia, que foi se espalhando pelo mundo.

No Brasil chegou em meados de 2004, onde diversos praticantes de São Paulo, Brasilia e Florianópolis começaram a treinar baseado nos videos de David Belle que assistiam na internet. Em 2005 foi fundada a Associação Brasileira de Parkour, que só foi devidamente registrada em 2006. Foi também realizado em Curitiba o 1o encontro brasileiro de parkour, que se tornou uma tradição e é realizado desde então todo ano, cada vez numa cidade diferente.

Hoje uma das maiores lutas é tirar a imagem do parkour de ser um esporte radical de manobras, algo como "skate sem skate" como falam frequentemente. O parkour não é esporte radical e tem muita filosofia por trás da prática. Afinal, são movimentos naturais que o homem sempre fez, apoiados agora apenas por uma idéia.

Segunda-feira, Fevereiro 23, 2009

Parkour - Mensagem

PARKOUR

Parkour é o nome dado por David Belle, ex-bombeiro francês de elite, para uma prática de desenvolvimento das habilidades naturais do homem, com o objetivo em algo ÚTIL. Isso significa que consiste em usar seu corpo de maneira útil ao deslocamento, sabendo usar habilidades como correr, pular, se equilibrar, escalar em seu benefício numa corrida, como fugindo de um perigo por exemplo.

Antes de tudo..
TIRE O LE DO PARKOUR
Muitas pessoas divulgam a atividade como sendo "LE PARKOUR". Na realidade, o nome é simplesmente Parkour, e o artigo masculino "Le", em francês, nada tem a ver com o nome da atividade em si. Parkour é simples e objetivo, seu nome também.

Agora..

QUESTIONE

Parkour vai além do físico. Vai além do seu objetivo original. Ele libera um instinto básico do humano, de se movimentar, de usar seu corpo de maneiras ditas não convencionais pelos tempos atuais. Libera um instinto de usar seu corpo e usar o ambiente de forma diferente do qual foi projetado. Estimula a pessoa a questionar. Porque devo subir pela escada se eu posso subir o muro? Porque ir pelo caminho traçado se meu corpo pede pra ir por outro? Porque dar a volta no corrimão se eu posso pular por cima? Eu posso seguir meu caminho, pensar da minha forma, não preciso seguir ninguem!


RESPEITE

Respeite a si mesmo. Respeite os outros. Respeite seu corpo.
Cuidado com a liberdade. Acima de tudo vivemos em sociedade, que se baseia em respeito mútuo. Não pratique em lugares proibidos, seja propriedade privada ou pública. Respeite a autoridade, e também outras pessoas ao seu redor.
Respeite os obstáculos: canos quebrados, tijolos soltos, paredes brancas. Queremos que o obstáculo esteja lá para que possamos treinar, queremos ser bem vindos nos locais onde frequentamos. Queremos divulgar parkour como uma prática CONSTRUTIVA, não destrutiva.
Respeite seu corpo: Ele precisa de preparação para praticar parkour. Precisa de cuidado. Dor pode ser um sinal de que há algo de errado com o seu treino. Você precisa do seu corpo sempre inteiro para continuar treinando, valorize-o.


EVOLUA

Seja hoje melhor do que você foi ontem.
E não pare por aí, leve parkour além do físico: Seja nos estudos, no trabalho, na sua vida pessoal: Cada passo que você da na rua é um treino, e deve ser melhor que o anterior. Seja uma pessoa melhor, um esportista melhor, um tracer melhor. Ande sem fazer barulho, escove o dente com a mão esquerda, reflita mais, se concentre mais em todos seus atos. Busque fazer com que CADA atitude sua seja consciente, cada inspiração pelo nariz, cada palavra lida, cada movimento, cada sentimento. Treine sua vida.


GIRE

Sim, gire! Parkour não tem mortal, isso está muito claro. Mas use seu corpo de formas diferentes, estimule de formas variadas! Aprenda mortal, aprenda a lutar, a nadar, a dançar... Perceba do que seu corpo é capaz e como isso pode ajudar, também, o seu parkour.


SOCIALIZE

Compartilhe de forma positiva o que você aprendeu. Aprenda com outras pessoas. Passe adiante tudo de bom que você aprendeu, com parkour ou não. Não feche sua cabeça, não feche seu círculo. Compartilhe sua visão e ouça as demais. Troque experiências, se politize. Seja um defensor da sua visão e seus ideais.



Esse texto é só uma mensagem que eu quero passar pros praticantes de parkour e interessados. Ele é redundante e incompleto, mas resumidamente a mensagem é: Torne cada atitude sua consciente, e faça dela hoje melhor do que foi ontem. Ah, e parem de falar "le parkour" porque é errado e feio, porra!
Créditos para "escovar os dentes" vai ao Bacon. E todo o resto, ao Parkour.